647.737
Árvores plantadas
70.862.067
Rolhas recolhidas

História da Floresta Portuguesa

A floresta autóctone resultou de diversos factores como a posição geográfica do nosso território, das características climáticas e, mais recentemente, pela influência humana sobre o meio ambiente.

A floresta natural predominante do nosso território desenvolveu-se depois do último período glaciar de Würm e mais particularmente desde há cerca de 13.000 anos (tardiglaciar), onde os bosques de carvalhos foram ganhando sucessivamente terreno à medida que o clima se tornou progressivamente mais amenos com a diferenciação biogeográfica similar à actual. Durante o Holoceno, grande parte do nosso território era ocupado por florestas de carvalhos de folha caduca (carvalho-negral – Quercus pyrenaica, carvalho-alvarinho – Q. robur), marcescente (cerquinho – Q. faginea) ou persistente (azinheira – Q. rotundifolia, sobreiro – Q. suber), para além de outros carvalhos com menor representação ou dominância (Q. canariensis, Q. coccifera, Q. lusitanica). A predominância das formações de carvalhos foi-se estendendo por grande parte do território com constituição de bosques temperados nas regiões do norte e centro e de bosques mediterrânicos nas regiões do centro e sul, e em algumas zonas do interior, com máximo de aridez no sudeste. Nas zonas mais húmidas, ao longo dos cursos de água surgiam florestas ripícolas, com espécies como o freixo (Fraxinus angustifolia), o amieiro (Alnus glutinosa), os salgueiros (Salix atrocinerea, S. salvifolia, entre outros), o choupo-negro (Populus nigra) e o choupo-branco (Populus alba), o loendro (Nerium oleander), entre outras espécies. Para além dos carvalhos, ocorriam também outras espécies arbóreas como sejam, entre outras, o azevinho (Ilex aquifolium), a aveleira (Corylus avellana), os bordos (Acer campestre, A. monspessulanum), o medronheiro (Arbutus unedo), a cerejeira-brava (Prunus avium), pereiras-bravas (Pyrus cordata, P. bourgaeana, entre outras), tramazeira (Sorbus aucuparia), o mostajeiro (Sorbus torminalis), o pilriteiro (Crataegus monogyna), o lentisco (Phyllirea angustifolia), com algumas raridades como o azereiro (Prunus lusitanica) e o loureiro (Laurus nobilis) elementos paleogénicos sub-tropicais. A nossa floresta natural é bastante diversa e inclui elementos de diversas origens biográficas (europeias, asiáticas, mediterrânicas, mauritânicas, alpinas, endemismos ibéricos) que coexistem em diferentes zonas do território.

Diversos estudos paleontológicos mostram a progressiva expansão e dominância das florestas de carvalhos, de folha caduca e perene, no nosso território durante o Holoceno, no entanto, com a alvorada do Neolítico, há cerca de 7.000 anos, com a prática da domesticação dos animais e das plantas, com o surgimento do pastoreio e da agricultura, a floresta natural foi sendo sucessivamente submetida a muitas pressões e alterações. Diversos registos evidenciam uma actividade humana mais marcante sobre a paisagem desde há cerca de 4.500 anos atrás em diversas zonas do nosso território. A prática do pastoreio, nomeadamente de cabras, teve um impacto significativo na nossa paisagem natural. O pastoreio, a agricultura, o corte de arvoredo e o uso do fogo, foram ao longo dos tempos moldando a nossa paisagem de forma muito destrutiva.

As sucessivas ocupações da península Ibérica por diversos povos, nomeadamente pelos romanos (séc. III AC – V DC) e muçulmanos (séc. VIII-XIII/XV DC) com incremento das povoações e da agricultura, conduziram a uma alteração da vegetação e do meio envolvente. Ao longo da Idade Média, diversos episódios de desflorestação, a transumância nas zonas de montanha, o arroteamento para terrenos de cultivo, foram igualmente determinantes na alteração da paisagem. A Baixa Idade Média foi um período de ocupação e organização dos espaços agro-silvo-pastoris em que ocorreu uma ruptura irreversível com fragmentação das grandes extensões arbóreas. O crescente aumento populacional que foi ocorrendo, de forma cíclica, ao longo da história recente, com a consequente necessidade por mais terrenos de cultivo e de pasto acentuaram a degradação da floresta autóctone. A floresta constituía uma importante fonte de madeira utilizada para diversas construções e para energia. A pesca, o comércio marítimo, e a época dos Descobrimentos exigiram, igualmente, um grande consumo de madeiras, sendo os carvalhos utilizados na construção de diversas embarcações. O consumo de madeiras de grande porte para a construção naval foi bastante grande, tornando-se num material escasso ao ponto de terem sido tomadas medidas de protecção e regulamentação dos arvoredos pela Marinha Portuguesa do Reino.

As preocupações dos nossos governantes pela preservação e fomento das áreas florestais foi-se manifestando ao longo de diferentes períodos da nossa história recente. Em 1565 é promulgada a Lei das Árvores, instituindo a arborização de incultos, baldios e terrenos particulares, sendo indicadas espécies autóctones, constituindo um marco importante na história dos recursos florestais. Um importante avanço ocorreria mais tarde, em 1824, com a criação da Administração Geral das Matas do Reino. Posteriormente, as acções promovidas pelos Serviços Florestais contemplaram em algumas zonas serranas do interior a recuperação dos bosques naturais, com a conservação do solo e da água.

Nos finais do séc. XIX a área florestal do país estava reduzida a pouco mais de 640.000 ha. A figura seguinte mostra a evolução da ocupação das principais espécies e formações florestais desde o início do séc. XX. As políticas florestais ao longo das últimas décadas resultaram sobretudo numa expansão das áreas de sobreiro, tendo sido mais modestas no que se refere a outras espécies da floresta autóctone.

Evolução da Ocupação das Principais Espécies e Formações Florestais em Portugal Continental
Evolução da ocupação das principais espécies e formações florestais desde 1902 a 2010 (Fonte de dados: ICNF).

De acordo com o último inventário florestal (2010, ICNF), as florestas de carvalho representam apenas 2 % da área florestal, mas a potencialidade no território é muito maior. O sobreiro e a azinheira representam 23 e 11 %, respectivamente. Tem-se registado uma tendência decrescente das áreas ocupadas por estas espécies, dos carvalhos, do sobreiro desde 1995 e particularmente da azinheira desde meados do século passado.